caeventura
Contra tudo e por todos

Que bicho mordeu esse povo que decidiu, de uma hora pra outra, ir para as ruas e gritar contra tudo o que está errado no país? Antropólogos, sociólogos, psicólogos e outros “ólogos” se debruçarão durante anos para estudar o fenômeno e traduzi-lo em centenas de páginas, com referências históricas de movimentos populares deflagrados em diversas partes do mundo. Independente da origem da inspiração democrática que toma de assalto ruas e avenidas da nação, devemos celebrar o sopro de indignação que tem tirado milhares de cidadãos do conforto de seus sofás para protestar contra o mau uso do nosso dinheiro.

O jornal “Folha de S.Paulo” foi feliz ao estampar em manchete “’Contra tudo’ e por mudanças, milhares vão para as ruas no país”, na edição de ontem. De fato, os protestos começaram em quatro capitais brasileiras com o propósito de reivindicar a redução das tarifas de trens, ônibus e metrôs. Porém, aos poucos, foram sendo moldados pelo povo. Logo, bateram de frente com a Fifa e com o Planalto, no movimento “Copa pra quem”, um grito de indignação contra o investimento bilionário na construção de estádios superfaturados, em detrimento da alta carga tributária, do desemprego, do aumento da inflação e da miséria que ainda assola uma grande parcela do nosso povo.


Para o bem da democracia e do desenvolvimento do Brasil, o movimento ganha força e razões diferentes a cada dia. Uns protestam contra a tarifa, outros resolvem berrar contra a homofobia, enquanto vão surgindo reivindicações específicas de municípios, classes sociais e categorias. Tudo isso é resultado de décadas de sonolência. É como se a população saísse de um longo torpor, alimentada por drogas lícitas como as novelas globais, o Bolsa Família e o futebol. Ao comentar a primeira página do LIBERAL postada ontem na rede social de fotos Instagram, que destaca o gasto de R$ 900 mil da Prefeitura de Americana com aluguel para inaugurar o Poupatempo ainda este ano, o instagramer César Rocha afirmou: “O futebol anestesia a mente do povo”. E ele tem razão. Durante anos, vivemos entorpecidos e alheios à corrupção e aos desmandos de uma classe política carreirista e sem comprometimento social.


Estamos vivenciando um momento histórico. Que pode mudar drasticamente o conceito de política e de gestão do bem público. Portanto, não fiquemos apenas como espectadores dessa multidão que atravessa a noite, sob chuva, frio, esprei de pimenta e balas de borracha, para mostrar que existe sangue correndo nas veias. Descubra o que te aflige e vá para as ruas. Você acha que não, mas pode fazer a diferença.


(*) Artigo publicado no jornal O LIBERAL desta quarta-feira

Estão de olho em você*

Nunca fui muito ligado a teorias conspiratórias, mas confesso ter ficado mais cauteloso com o compartilhamento de informações pessoais nas redes sociais depois de ler numa revista semanal uma reportagem sobre o Big Data – nome em inglês usado para definir a quantidade flutuante de informações que produzimos no mundo virtual. Você sabia que um simples clique no mouse para comprar um livro, uma obra “devorada” num leitor eletrônico, uma foto postada no Facebook, um novo tuíte, um vídeo compartilhado no YouTube, uma pesquisa no Google, um e-mail enviado a um amigo e que até mesmo aquele telefonema gravado “para sua segurança” são rastros digitais que podem revelar informações preciosíssimas sobre sua personalidade, suas preferências, necessidades e posições políticas?

Pois é. O que não passava de ficção agora é realidade. No filme “Inimigo do Estado”, lançado há 15 anos, Will Smith vive um advogado bem-sucedido que acaba perseguido pela NSA (Agência Nacional de Segurança), após receber um vídeo que mostra um congressista sendo assassinado por um agente do alto escalão do governo norte-americano. Na busca, os homens usam imagens de satélite, câmeras instaladas em prédios públicos e privados, conexões de internet e ligações telefônicas para localizá-lo. Qualquer semelhança com a caçada aos irmãos Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev, autores do atentado que deixou três mortos na Maratona de Boston no mês passado, não é mera coincidência.

N
ão bastasse estarmos sob vigilância constante, nós nos entregamos ao mundo virtual. Hoje em dia, não é difícil acompanhar o crescimento de um bebê pelo Facebook. A primeira foto, feita minutos após o parto, os primeiros passos, a descoberta da fala. Na intenção de compartilhar momentos de felicidade com familiares e amigos, pais acabam alimentando a rede - acessível a pessoas com intenções de todo tipo - com informações detalhadas de seus filhos. Imagine o volume de dados que o Big Data terá quando essas crianças tiverem 18 anos? Talvez mais do que os próprios pais.

Com toda essa exposição, não se assuste se receber uma oferta de óculos de sol na lateral direita de sua página no Facebook, dias depois de fazer uma pesquisa em um site de comparação de preços ou de curtir a página de uma determinada loja ou fabricante de produtos similares na rede social. Também é possível que você tenha de atender a ligação de um candidato depois de compartilhar uma mensagem dele no Twitter ou de demonstrar afinidade com seu partido curtindo uma foto postada na rede de fotos Instagram. Por isso, pense duas vezes antes do uso frenético dos dedos diante de um dispositivo fixo ou móvel. Eles estão de olho em você.


(*) Artigo publicado na edição desta quarta-feira do LIBERAL
Que tal ver o ‘copo meio cheio’?

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa diz que uma pessoa otimista está sempre disposta a ver as coisas pelo lado bom e espera uma solução favorável, mesmo nas situações mais difíceis. Por passar um estado de apatia, o otimismo muitas vezes é vinculado ao conformismo e ao antônimo de realismo. Para o filósofo alemão Gottfried Leibniz (1646-1716), porém, esse sentimento está ancorado na ideia de que “este é o melhor dos mundos possíveis”. Ou seja, se temos o máximo, por que reclamar da vida? Nesse raciocínio, segundo essa corrente filosófica com forte carga religiosa, cabe a nós vencer os obstáculos encontrados no dia a dia e aproveitar os bons momentos que temos. 
 
O jovem Luan Pessoa deu um excelente exemplo de otimismo no início desta semana. Namorado de Meire Cristina Pires de Lima, estudante universitária de 18 anos que teve uma perna amputada após ter sido atropelada na calçada de uma padaria em Americana, Pessoa “respirou fundo” e, mesmo no olho do furacão, viu o lado positivo daquela trágica manhã de domingo. “Deus poupou minha namorada de um acidente maior. Ele não tirou uma perna dela. Deu uma nova chance para ela recomeçar”, disse o aprendiz de eletricista, numa postagem feita na segunda-feira em seu perfil no site de relacionamento Facebook. 

O otimismo estimula ações positivas, inibe angústias, conforta o coração, abre caminho para o sorriso fácil e, por incrível que pareça, acalma o mercado. Durante um fórum realizado na Bahia, o banqueiro André Esteves criticou o pessimismo com os números da economia. É preciso ver o “copo meio cheio”, disse o dono do BTG Pactual, maior banco de investimentos independente do país, a uma plateia formada por empresários e políticos como o vice-presidente da República Michel Temer (PMDB) e o pré-candidato à Presidência Eduardo Campos (PSB). 
 
Até mesmo o jornalismo precisa de amplas janelas de otimismo. Embora tragédias, escândalos de corrupção, oscilações econômicas e decisões políticas rendam audiência, cabe à imprensa mostrar bons exemplos. Histórias de pessoas que superaram adversidades e venceram, de gente que não mede esforços para ajudar o próximo etc. É claro que um jornal não pode enxergar o “copo meio cheio” o tempo todo, como cobrou o banqueiro. Afinal, assim como portais de notícias e emissoras de rádio e televisão, o impresso tem a fiscalização do poder como principal missão. O problema é que, nessa ronda permanente, encontramos muitos “copos meio vazios” pelo caminho. E é dever dos jornalistas levá-los ao conhecimento do público.


Artigo publicado na edição desta quinta-feira do jornal O LIBERAL - www.liberal.com.br

O livreiro e o jornalista

Ídolo para uns e celebridade para outros, Chico descobriu nos jornais a afinidade com as letras e a paixão incontrolável pela literatura. Trabalhando como jornaleiro nas ruas de São Paulo, o jovem piauiense mais lia do que entregava e chamava a atenção dos compradores. Francisco Joaquim de Carvalho hoje é dono da Livraria do Chico, um templo de leitura que funciona há 38 anos em um dos corredores da UnB (Universidade de Brasília), e um devorador de obras de autores como Paulo Leminski, José Saramago e Antonio Skármeta.

Apresentada na edição do último domingo do programa “Fantástico”, da TV Globo, a trajetória de Chico Livreiro me remeteu a um passado não muito distante. Se o comerciante brasiliense encontrou nos textos jornalísticos o gosto pela leitura e a oportunidade de fazer a vida vendendo livros, eu fiz o caminho inverso. Achei nas memórias de Carlos Heitor Cony, nas biografias de Ruy Castro, nos romances de Gabriel García Márquez e nas crônicas de Rubem Alves minha vocação para o jornalismo.

Eu tinha 17 anos - em 1992 - quando fui contratado para trabalhar numa livraria no Centro de Campinas. Gostei do ambiente logo no primeiro dia. Além de estar cercado por prateleiras abarrotadas de conhecimento, trabalhava com pessoas inteligentes e aprendia muito com os clientes. Jamais me esquecerei de dona Celina, uma funcionária aposentada do Banco do Brasil que comprava uma média de cinco livros por semana e me ensinou a enxergar a beleza singular impressa nas obras dos pintores holandeses Vincent Van Gogh e Johannes Vermeer.

Entre um livro e outro, percebia que meu futuro estava relacionado de alguma forma à escrita. Foi nessa época que li grandes clássicos nacionais e internacionais e transformei meu trabalho em horas produtivas de acúmulo de conhecimento. No início, lia as orelhas e os prefácios de todos os livros que vendia. Talvez já no exercício involuntário da reportagem, questionava os clientes sobre as obras e guardava as informações para que servissem, no futuro, como argumentos de venda.

Iniciei a faculdade de jornalismo em 1996. A grande intimidade e o fácil acesso aos livros foram fundamentais para que eu não tivesse problemas para devorar as bibliografias recomendadas pelos professores e fazer as pesquisas necessárias para a elaboração dos inúmeros trabalhos exigidos durante os quatro anos do curso. Se hoje sou um jornalista com uma bagagem literária razoável, devo isso ao meu passado como “livreiro”. Nesse aspecto, meu passado se encontra com o presente do bravo Chico.


Artigo publicado no jornal O LIBERAL desta quarta, 10-04

Fique (bem) longe dos loucos

Um dia desses, ouvi um cara dizer que quem frequenta estádio é xarope. Embora a frase tenha sido colocada em um debate sobre a morte do adolescente Kevin Beltrán Espada, de 14 anos, vítima de um sinalizador disparado por um torcedor corintiano durante a partida entre San Jose e Corinthians, válida pela primeira rodada da fase de grupos da Copa Libertadores, permita-me discordar.

O amante de futebol não é um torcedor, independente do conhecimento que tem sobre seu time e do tamanho da sua coleção de camisas, pôsteres e de recortes de jornal, sem ter sentido a vibração da arquibancada. É um sentimento único, indescritível e que não se compara à comodidade e à segurança do sofá. O torcedor é forjado no estádio, não no radinho ou diante de uma ampla tela 3D.

A tragédia de Oruro, resultado de um ato inconsequente do fragmento de uma torcida que se autointitula um bando de loucos, é, acima de qualquer coisa, um caso de polícia. E deve ser tratada como tal. Um “louco” que entra num estádio com sinalizadores náuticos e dispara, involuntariamente ou não, contra outra torcida é, no mínimo, imprudente e deve pagar por sua “loucura”.

Frequento estádios desde a infância. Durante essa trajetória de mais de 30 anos, já vi muita coisa. Brigas generalizadas, confrontos entre torcedores e policiais, correrias, tumultos, roubos, saques, mortes etc. Sempre observei tudo, mas nunca me envolvi diretamente em situações que ameaçassem minha integridade física.

É claro que cada jogo tem um fator de risco. Quanto maior a rivalidade dentro das quatro linhas, maiores são as chances de os ânimos se exaltarem fora delas. Isso porque o torcedor absorve a tensão do jogo e a processa emocionalmente. Alguns, psicologicamente mais fortes, a assimilam e a eliminam internamente. Outros, porém, precisam extravasar e, muitas vezes, o fazem com o uso da violência.

Considerando as probabilidades e o histórico brasileiro, eu diria que ir a um estádio de futebol é tão seguro quanto enfrentar o trânsito carregado das grandes cidades, se locomover pelo espaço aéreo brasileiro, frequentar baladas ou divertir-se num parque de diversões. Nas quatro situações citadas, há risco de morte. Porém, em proporções estatísticas “aceitáveis”.

Por isso, continuarei indo a estádios. Criterioso, como sempre fui. É claro que não vou ficar na reta de malucos uniformizados e de outros tantos criminosos que denigrem o futebol e afastam as famílias de um entretenimento tão bacana. Afinal, não sou nenhum camicase. Apenas não abro mão de sentir a arquibancada tremer sob os meus pés e viver a magia que só um campo de futebol proporciona.

(*) Artigo publicado na edição desta quarta-feira, 27/02, do jornal O LIBERAL

Somos todos culpados

“Todos os dias, quando deito pra dormir e falo com Deus, ele me diz: ‘Karin, você tem desafios’, e me pede pra escolher qual lado da vida quero seguir; se é ao lado dele, de mãos dadas com ele, ou se é o lado do mundo. Bom, hoje ao deitar pra dormir tenho certeza de qual lado quero ficar. Quero ficar com ele, ao lado dele, pois sei que é lá o meu lugar e é de lá que vem o meu refúgio, minha fortaleza, e é só lá que mora a minha felicidade”.

Esse foi o último pensamento compartilhado no Facebook pela jovem Karin Siqueira, morta em um acidente de trânsito na manhã da última sexta-feira, em Sumaré. Antes de qualquer coisa, deixo aqui meus profundos sentimentos à família e aos amigos de Karin, uma menina de 19 anos, cheia de sonhos e que partiu de maneira precoce.

Muita gente, inclusive eu, ainda tenta interpretar o que há por trás dessas palavras. Para os mais religiosos, o “diálogo” reproduzido acima soa como um chamado divino. Outros adotam a linha do misticismo, do sobrenatural. Os mais céticos, no entanto, fogem da discussão e preferem o discurso mundano, de valorização da vida, de respeito ao próximo, para a construção de um legado positivo antes da partida.

Enquanto as duas perguntas que movem a humanidade - De onde viemos? Pra onde vamos? - não forem respondidas, tragédias como a de Sumaré e a de Santa Maria continuarão gerando uma série de questionamentos e reflexões. Situado entre religiosos, místicos e céticos, acho importante uma análise mais objetiva de acidentes como o que vitimou Karin – reitero, com todo respeito e solidariedade à família.

A morte da garota sumareense é mais um sintoma do colapso urbano. Mais um grito de alerta às autoridades para a enxurrada de automóveis despejada em malhas viárias já saturadas. Juntas, Americana, Hortolândia, Nova Odessa, Santa Bárbara d’Oeste e Sumaré começaram o ano com 496,7 mil veículos, entre carros, motos, ônibus e caminhões - 32,3 mil a mais que o apurado no início de 2012. As motos representam um quinto da frota. Ou seja, a cada cinco veículos em circulação, um é motocicleta ou motoneta (auto de duas rodas menos potente, mas igualmente perigoso).

Portanto, rezemos por Karin. Mas, não nos esqueçamos de refletir sobre as condições do nosso trânsito. Independente de quem estava certo ou errado no cruzamento da Rua Dom Barreto com a Avenida José Mancini, se houve imprudência ou não, cada um que toma a atitude egoísta de comprar um veículo para fugir do transporte público e ajuda a congestionar as ruas e avenidas do país tem sua parcela de culpa em eventos trágicos como esse.

(*) Texto publicado na edição desta quarta-feira, 6 de fevereiro, do jornal O Liberal

Não é tão fácil ser Obama

Era um pesadelo ser negro nos Estados Unidos da temida Klu Klux Klan, entre os séculos 19 e 20. Em nome da supremacia branca, a organização racista - criada para impedir a integração social de escravos recém-libertados - os perseguia e os matava, com apoio da maioria da sociedade. Porém, vozes como a do pastor Martin Luther King transformaram um país segregado em uma das nações mais miscigenadas do planeta.

No entanto, o racismo ainda sobrevive nas entranhas da antiga colônia inglesa. De forma velada, é claro, existe uma divisão entre negros e brancos. O presidente Barack Obama está sentindo isso. Por mais que se empenhe na difícil missão de recuperar a maior economia do mundo, ainda abalada pela crise econômica mundial de 2008, o líder enfrenta oposição sistemática no Congresso, reforçada pelo lobby de setores historicamente conservadores.

Atualmente, é interessante, prazeroso e até imponente ser negro na terra do Tio Sam. A quebra de tabus e o surgimento de talentos de pele escura no esporte, na música e no cinema criaram uma atmosfera natural de integração racial que foi determinante para a transformação de um conjunto de estados na nação mais poderosa do mundo.

Shawn Thew_Agência Lusa_Agência Brasil


Porém, não é tão fácil assim ser um presidente negro nos Estados Unidos. Eleito em 2008 o primeiro da história norte-americana, Barack Hussein Obama percebeu isso ao longo do primeiro mandato e só foi reeleito graças aos votos das minorias – negros, gays e imigrantes, principalmente a comunidade latina que é muito forte no país. Por isso, ao tomar posse para seu segundo mandato, na segunda-feira, fez questão de agradecer a esses segmentos, pois sabe que, sem eles, não teria vencido a eleição.

Mas, Obama não quer ser lembrado como um líder negro. Ele quer deixar um legado para todos os cidadãos americanos e um exemplo para o mundo. E sabe que, se governar apenas ao lado das minorias, não conseguirá alcançar seu objetivo. Pensando nisso, pediu união entre os norte-americanos. “Agora, mais do que nunca, devemos fazer essas coisas juntos, como uma só nação e um só povo”, disse o presidente.

O democrata conhece bem os valores americanos. Sabe da capacidade que seu povo tem para se unir e crescer por uma causa. Aliás, os norte-americanos sempre se destacam pelo patriotismo e pela determinação com a qual agarram desafios e dificuldades. As comemorações de 4 de julho, dia da independência norte-americana, a tragédia de 11 de setembro de 2001 e a hegemonia olímpica são provas fortes disso.

Enfim, Obama já escreveu seu nome na história. Agora, corre atrás de um legado. Acompanhemos, atentos, os próximos quatro anos.


Texto publicado na edição de 23/01/13 do jornal O Liberal, de Americana

12-12-12

Se você está lendo esse texto, provavelmente não está morto. A menos que o apocalipse evocado pela combinação de dozes tenha te transformado num dos mortos-vivos da badalada série de TV “The Walking Dead” ou em um dos “sobreviventes” da enigmática ilha de “Lost”. É isso mesmo. Você sobreviveu, mais uma vez, a essa ridícula avalanche de profecias infundadas, disseminadas em pontos de ônibus, rodas de amigos, redes sociais, na televisão e no cinema.

Mas, e se o mundo realmente acabou e estamos todos queimando no fogo do inferno? É claro que minha indagação não tem qualquer conotação religiosa. Refiro-me ao forte calor que tem anulado ventiladores, desafiado aparelhos de ar condicionado e transformado noites de sono em horas intermináveis em claro e camas em enormes caldeirões. E pensar que o verão nem chegou…

Perturbado pelo calor, me achei em um longo pesadelo na noite que precedeu a elaboração desse artigo. No meu delírio, era manhã de 12 de dezembro de 2012. O sol era tão forte que as pessoas andavam pelas ruas com máscara de soldador, chapéu, calçados especiais e com as cabeças baixas. O raio ultravioleta era intenso a ponto de queimar a pele de quem ousasse enfrentá-lo com o corpo descoberto. Com medo de sofrer queimaduras, as pessoas caminhavam curtas distâncias a passos apressados.

Reféns da ira climática, homens, mulheres e crianças viviam confinados em ambientes com ar condicionado. Alguns, com mais sorte ou menos dinheiro, se refugiavam sob as poucas árvores que resistiam aos raios solares e minguavam sem a irrigação mínima necessária. Não chovia, a brisa de outrora se tornara uma fumegante onda de ar quente e não se via nuvens no céu. Eram raras as piscinas a céu aberto e as praias, hoje sonho de consumo de nove entre dez brasileiros, haviam se transformado em desertos regados a água fervente.

Acordei suado e ofegante. Por alguns segundos, até achei que estivesse diante do fim do mundo. Com exceção dos detalhes extraídos do meu imaginário hollywoodiano, constituído por películas catastróficas como “O dia depois de amanhã”, “A estrada”, “Presságio”, “2012” etc, minha versão para o apocalipse não foi tão ruim assim. Sentimos na pele o aquecimento global, projetamos a escassez de recursos naturais e pouco - ou nada - fazemos para que a situação não alcance proporções catastróficas.

Assim, de olho na Bíblia e no calendário maia, seguimos esperando passivamente o fim do mundo. Fora assim em 10-10-10, em 11-11-11 e agora em 12-12-12 - embora alguns “profetas” cravem que não passaremos de 21-12-12 Aguardemos. E no ano que vem tem mais. Imagine o que dirão do ano 13? Prepare-se!

Uma lição inesquecível

Guardarei sempre na memória a imagem de uma senhora de estatura média, cabelos levemente cacheados, olhar sereno, óculos discretos, sorriso comedido, andar tranquilo e uma enorme sabedoria. Embora tenha tido o privilégio de absorver conhecimento de dezenas de grandes mestres ao longo dos meus 37 anos, 8 meses e 10 dias, eu não poderia deixar de prestar minha homenagem à professora que pegou na minha mão e me mostrou o caminho para que me tornasse um homem de caráter e consciente dos meus direitos e deveres na sociedade.

Cecília Parente Leite entrou na minha vida em meados de 1982, na rede municipal de ensino de Sumaré, cidade na qual passei os sete primeiros anos da infância. Na época, o chamado primeiro grau (hoje ensino fundamental) era composto por oito séries - da 1ª à 8ª - e precedido pelo famoso e agradável pré-primário. Eu saíra do “prezinho” e chegava à escola cheio de receio e com um enorme frio na barriga.

Logo que entrei na sala de aula, ocupei uma das primeiras carteiras e fixei o olhar na porta, à espera da minha primeira professora, de fato. Pontual, ela chegou, colocou seu material sobre a mesa, posicionou-se no centro do quadro negro, olhou no rosto de cada um de nós e, segundos depois, interrompeu o silêncio. “Bom dia, meus queridos! Meu nome é Cecília e eu serei a professora de vocês este ano”, disse a simpática senhora.

Depois de nos conhecer, Cecília tratou de passar a primeira grande lição da minha vida. Não me lembro exatamente da tarefa, mas ainda sinto o calor e a firmeza da sua mão sobre minha, guiando-a e me mostrando o ritmo e a sequência necessários para a perfeita execução. A partir daí, nunca mais fui o mesmo. Minha vontade de aprender cresceu de forma avassaladora e me tornei um devorador de conhecimento.

A mão da saudosa educadora sumareense se tornou um estímulo permanente para mim e, acima de tudo, uma grande metáfora na minha vida. Descobri, entre muitas outras coisas, que o professor não exerce uma profissão. A docência vai muito além disso. É a manifestação de um dom maravilhoso que nasce com pessoas iluminadas, dispostas a dedicar suas vidas à formação de grandes homens e mulheres. Não nasci com esse sopro divino. Porém, reconheço e sempre reverenciarei todos que têm essa vocação cada vez mais menosprezada por prefeitos, governadores e presidentes.


Professora Cecília, onde quer que esteja, quero que saiba que fez um excelente trabalho. Sua mão ainda direciona a minha e me estimula dia a dia a ser uma pessoa melhor, com disposição para aprender e humildade para reconhecer que a vida é um eterno aprendizado. Muito obrigado!

(*) Artigo publicado na edição de 17 de outubro do jornal O Liberal (www.liberal.com.br)

I’m on InstaMessage! Chat with me now! #instamessage (Publicado com o Instagram)

I’m on InstaMessage! Chat with me now! #instamessage (Publicado com o Instagram)