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O pensador continua vivo

Tenho ótimas lembranças do tempo em que ganhava a vida como vendedor de livros. Eu até brincava com os fregueses; dizia que aquilo não era um trabalho, e sim uma grande oportunidade de convívio com letras e letrados devoradores de palavras impressas. Foram pouco mais de sete anos carregando, conferindo, classificando, guardando, limpando e, claro, lendo obras de autores das mais diversas nacionalidades e estilos. Aprendi muito com escritores, professores, intelectuais e colegas de trabalho.

Lembro-me como se fosse ontem de quando conheci Rubem Alves, um homem sábio, humilde, bom de conversa e que tinha enorme domínio do que estava acontecendo ao seu redor. Era uma noite de sábado de 1993. O escritor mineiro que escolheu Campinas para viver a maior parte da sua vida fora convidado para uma noite de autógrafos do livro “O Retorno e Terno”. Responsável pela seção de literatura nacional, fui escalado pelo gerente para preparar a mesa do escritor.

E cumpri a ordem com um prazer ímpar. Fiz quatro pilhas simétricas do novo livro e deixei um espaço no centro da mesa, para que o escritor ficasse à vontade com os convidados. Pouco antes do início do evento, abri o livro e me deparei com o seguinte trecho: “Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade”.

Gostei do que li. E dividi isso com o autor. Ele sorriu, olhou pra mim e disse, com um semblante contido de extrema felicidade, que “a melhor coisa que temos são os nossos sonhos”. Conversamos durante cerca de 15 minutos; eu, ele e o gerente da loja. Depois desse dia, o encontrei em outras duas ocasiões. Sempre às voltas com os livros e rodeado por educadores, poetas, teólogos e estudantes universitários.

No último sábado, quando soube de sua morte, aos 80 anos, me recordei dos nossos encontros, das centenas de livros dele que vendi e embrulhei para presente, daqueles que tive o prazer de ler, dos muitos elogios que ouvi de apreciadores da boa literatura, de quando o indiquei a fregueses e de uma série de outras passagens inesquecíveis. A ministra da Cultura Marta Suplicy tem razão; “Rubem Alves era um encantador”. Encantava a todos a sua volta pela pessoa simples e inteligente que era e pela sutileza do seu texto, que põe os leitores para pensar no real significado da vida.

O homem se foi. O pensador, porém, permanece vivo em nossos corações.


Artigo publicado na edição de quarta-feira, 23-07, do jornal O LIBERAL

Direto de Nova York, Caio Túlio Costa desbrava a convergência numa mesa composta por Antônio Prada, Eugênio Bucci e Alessandra Levy. Novos modelos de negócios jornalísticos em ampla discussão no seminário internacional Grande Pequena Imprensa, promovido pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo - leia-se Observatório da Imprensa - na sede do Google Brasil, em São Paulo. Muito bacana! #jornal #jornalismo #convergência #multimidia #online #projor #google #youtube #gpi #imprensa #local #regional #journal #newspaper #journalism #convergence #multimedia #press #sp (em Google Brasil)

Direto de Nova York, Caio Túlio Costa desbrava a convergência numa mesa composta por Antônio Prada, Eugênio Bucci e Alessandra Levy. Novos modelos de negócios jornalísticos em ampla discussão no seminário internacional Grande Pequena Imprensa, promovido pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo - leia-se Observatório da Imprensa - na sede do Google Brasil, em São Paulo. Muito bacana! #jornal #jornalismo #convergência #multimidia #online #projor #google #youtube #gpi #imprensa #local #regional #journal #newspaper #journalism #convergence #multimedia #press #sp (em Google Brasil)

O choro que faz sorrir

Quando nasce, o bebê tem uma reação instintiva interessante. Ele simplesmente chora. Chora para esvaziar os pulmões de líquido amniótico e enchê-los de oxigênio, elemento que o alimentará pelo resto da vida. Chora para tranquilizar a mãe, angustiada e emocionada com um dos momentos mais sublimes da natureza humana, e depois parar de berrar ao ouvir sua voz. Chora para se apresentar ao mundo: “eu cheguei”. Chora para pedir aos médicos que terminem logo o parto, para que sua genitora pare de sofrer e o embale nos braços.

Sem ainda conhecer o mundo que o recebe, o recém-nascido chora já prevendo as dificuldades que enfrentará nessa caminhada chamada vida. Chora indignado com a maldade que transforma seres essencialmente bons em assaltantes, homicidas, estupradores, corruptos etc. Chora por saber que passa a fazer de parte de um mundo contaminado pela malandragem dos homens, que não medem esforços para obter fama e dinheiro, em detrimento do sofrimento de tantos pobres e miseráveis dependentes de uma infraestrutura pública falida.

Também chora se antecipando às muitas emoções que sentirá. O choro sem lágrimas o remete ao primeiro contato com o ambiente externo, aos primeiros acordes da voz materna, ao primeiro contato com o seio daquela que o amará incondicionalmente até o fim dos seus dias, ao sentir o gosto do colostro e do leite que brota milagrosamente do mamilo de sua protetora, ao primeiro contato visual com a mãe, às inúmeras brincadeiras com o pai, ao primeiro passo, ao primeiro passeio no parque, ao primeiro piquenique, à primeira bicicleta, ao primeiro dia de aula, às inúmeras formaturas que virão, às festas, à probabilidade do casamento etc.

Depois de chorar pela primeira vez às 19h50 do dia 7 de fevereiro de 1975, voltei à Maternidade de Campinas no último dia 13 para ouvir o choro mais emocionante da minha vida. No centro cirúrgico do segundo andar do centenário hospital localizado na Avenida Orosimbo Maia, comandado pelo obstetra Miguel Brondi, assisti ao nascimento da minha filha Ana Luísa. Pontualmente às 7h58 daquela manhã, um pranto determinado ecoou pela sala fria ocupada por cerca de dez pessoas, entre cirurgiões, anestesistas, pediatras e enfermeiras.

Quem já passou por isso sabe como é difícil traduzir esse momento em palavras. A sensação é única. Sei que minha filha chorará muitas vezes daqui pra frente. Ora de alegria, ora de tristeza. Em todas as ocasiões, espero estar ao seu lado para abraçá-la e enxugar suas lágrimas. Seremos sempre cúmplices, querida; no choro ou no sorriso.

(*) Artigo publicado na edição de 25 de setembro do jornal O Liberal

Tem um bicho na minha maçã
Quando entrei na loja da operadora Vivo no Parque D. Pedro Shopping, em Campinas, naquela tarde quente de 29 de janeiro de 2012, um domingo, estava convencido de que apenas alguns minutos me separavam de uma das sete maravilhas do mundo digital. Estava prestes a adquirir um sonho de consumo da maioria dos jovens do planeta e sinônimo de status numa sociedade cada vez mais conectada e ávida pela recepção ininterrupta de conteúdo. Consumidor voraz de tecnologia, não conseguia mais esconder minha vontade de experimentar a suculenta maçã de Steve Jobs.
 
E as primeiras mordidas foram alucinógenas. De fato, a engenhoca intuitiva da Apple é uma formidável extensão da mente humana. Não é à toa que a empresa de Cupertino acumula recordes de vendas – foram 31,2 milhões de iPhones vendidos no terceiro trimestre fiscal de 2013, finalizado em 29 de junho. Atrás da maçã do pecado de Jobs, reside o poder do desejo, da sedução inerente às grandes marcas. Por que o magnetismo de Ferraris, Porsches, BMWs e Mercedes-Benz, por exemplo, resiste ao tempo? Coisas do capitalismo…
 
No entanto, minha lua de mel com a Apple acabou 18 meses após o casamento. No último domingo, mesmo tratando meu iPhone 4S de 16 gigabytes como um filho, um dos alto-falantes (o responsável pela emissão do toque do aparelho) pifou. Fiquei indignado! Como um aparelho desse porte pode ser “programado” para explodir ao término da garantia? Isso é inconcebível! É a mesma coisa que comprar uma maçã argentina e encontrar um bicho entre uma dentada e outra.
 
Não bastasse a decepção com a qualidade do gadget, o suporte técnico guardava outra surpresa para mim. A multinacional não faz reparos desse tipo. “A Apple Brasil não tem peças para substituição”, disse um atendente chamado Ítalo, explicando que terei de pagar R$ 539 para que meu telefone defeituoso seja trocado por um novo. Não me parece um procedimento justo. Pago o que estão me pedindo e terei o brilho prateado da maçã mordida de volta por quanto tempo? Por mais um ano e meio? Será que vale a pena, Jobs?
 
Passado o delírio, pergunto: estaria a Apple embalando sucata com laço de cetim em fabriquetas montadas em quintais do terceiro mundo ou quis o destino que eu escolhesse a fruta bichada no fundo do cesto? Independente de qualquer coisa, alguém precisa avisar o Tim Cook, presidente-executivo da empresa, que até mesmo marcas consolidadas no mercado só se sustentam sobre uma base sólida composta por qualidade e respeito incondicional ao cliente. Se não abrir o olho, a megacompanhia pode ganhar fama de maçã podre.

(*) Artigo publicado no jornal O Liberal desta quinta-feira
Contra tudo e por todos

Que bicho mordeu esse povo que decidiu, de uma hora pra outra, ir para as ruas e gritar contra tudo o que está errado no país? Antropólogos, sociólogos, psicólogos e outros “ólogos” se debruçarão durante anos para estudar o fenômeno e traduzi-lo em centenas de páginas, com referências históricas de movimentos populares deflagrados em diversas partes do mundo. Independente da origem da inspiração democrática que toma de assalto ruas e avenidas da nação, devemos celebrar o sopro de indignação que tem tirado milhares de cidadãos do conforto de seus sofás para protestar contra o mau uso do nosso dinheiro.

O jornal “Folha de S.Paulo” foi feliz ao estampar em manchete “’Contra tudo’ e por mudanças, milhares vão para as ruas no país”, na edição de ontem. De fato, os protestos começaram em quatro capitais brasileiras com o propósito de reivindicar a redução das tarifas de trens, ônibus e metrôs. Porém, aos poucos, foram sendo moldados pelo povo. Logo, bateram de frente com a Fifa e com o Planalto, no movimento “Copa pra quem”, um grito de indignação contra o investimento bilionário na construção de estádios superfaturados, em detrimento da alta carga tributária, do desemprego, do aumento da inflação e da miséria que ainda assola uma grande parcela do nosso povo.


Para o bem da democracia e do desenvolvimento do Brasil, o movimento ganha força e razões diferentes a cada dia. Uns protestam contra a tarifa, outros resolvem berrar contra a homofobia, enquanto vão surgindo reivindicações específicas de municípios, classes sociais e categorias. Tudo isso é resultado de décadas de sonolência. É como se a população saísse de um longo torpor, alimentada por drogas lícitas como as novelas globais, o Bolsa Família e o futebol. Ao comentar a primeira página do LIBERAL postada ontem na rede social de fotos Instagram, que destaca o gasto de R$ 900 mil da Prefeitura de Americana com aluguel para inaugurar o Poupatempo ainda este ano, o instagramer César Rocha afirmou: “O futebol anestesia a mente do povo”. E ele tem razão. Durante anos, vivemos entorpecidos e alheios à corrupção e aos desmandos de uma classe política carreirista e sem comprometimento social.


Estamos vivenciando um momento histórico. Que pode mudar drasticamente o conceito de política e de gestão do bem público. Portanto, não fiquemos apenas como espectadores dessa multidão que atravessa a noite, sob chuva, frio, esprei de pimenta e balas de borracha, para mostrar que existe sangue correndo nas veias. Descubra o que te aflige e vá para as ruas. Você acha que não, mas pode fazer a diferença.


(*) Artigo publicado no jornal O LIBERAL desta quarta-feira

Estão de olho em você*

Nunca fui muito ligado a teorias conspiratórias, mas confesso ter ficado mais cauteloso com o compartilhamento de informações pessoais nas redes sociais depois de ler numa revista semanal uma reportagem sobre o Big Data – nome em inglês usado para definir a quantidade flutuante de informações que produzimos no mundo virtual. Você sabia que um simples clique no mouse para comprar um livro, uma obra “devorada” num leitor eletrônico, uma foto postada no Facebook, um novo tuíte, um vídeo compartilhado no YouTube, uma pesquisa no Google, um e-mail enviado a um amigo e que até mesmo aquele telefonema gravado “para sua segurança” são rastros digitais que podem revelar informações preciosíssimas sobre sua personalidade, suas preferências, necessidades e posições políticas?

Pois é. O que não passava de ficção agora é realidade. No filme “Inimigo do Estado”, lançado há 15 anos, Will Smith vive um advogado bem-sucedido que acaba perseguido pela NSA (Agência Nacional de Segurança), após receber um vídeo que mostra um congressista sendo assassinado por um agente do alto escalão do governo norte-americano. Na busca, os homens usam imagens de satélite, câmeras instaladas em prédios públicos e privados, conexões de internet e ligações telefônicas para localizá-lo. Qualquer semelhança com a caçada aos irmãos Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev, autores do atentado que deixou três mortos na Maratona de Boston no mês passado, não é mera coincidência.

N
ão bastasse estarmos sob vigilância constante, nós nos entregamos ao mundo virtual. Hoje em dia, não é difícil acompanhar o crescimento de um bebê pelo Facebook. A primeira foto, feita minutos após o parto, os primeiros passos, a descoberta da fala. Na intenção de compartilhar momentos de felicidade com familiares e amigos, pais acabam alimentando a rede - acessível a pessoas com intenções de todo tipo - com informações detalhadas de seus filhos. Imagine o volume de dados que o Big Data terá quando essas crianças tiverem 18 anos? Talvez mais do que os próprios pais.

Com toda essa exposição, não se assuste se receber uma oferta de óculos de sol na lateral direita de sua página no Facebook, dias depois de fazer uma pesquisa em um site de comparação de preços ou de curtir a página de uma determinada loja ou fabricante de produtos similares na rede social. Também é possível que você tenha de atender a ligação de um candidato depois de compartilhar uma mensagem dele no Twitter ou de demonstrar afinidade com seu partido curtindo uma foto postada na rede de fotos Instagram. Por isso, pense duas vezes antes do uso frenético dos dedos diante de um dispositivo fixo ou móvel. Eles estão de olho em você.


(*) Artigo publicado na edição desta quarta-feira do LIBERAL
Que tal ver o ‘copo meio cheio’?

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa diz que uma pessoa otimista está sempre disposta a ver as coisas pelo lado bom e espera uma solução favorável, mesmo nas situações mais difíceis. Por passar um estado de apatia, o otimismo muitas vezes é vinculado ao conformismo e ao antônimo de realismo. Para o filósofo alemão Gottfried Leibniz (1646-1716), porém, esse sentimento está ancorado na ideia de que “este é o melhor dos mundos possíveis”. Ou seja, se temos o máximo, por que reclamar da vida? Nesse raciocínio, segundo essa corrente filosófica com forte carga religiosa, cabe a nós vencer os obstáculos encontrados no dia a dia e aproveitar os bons momentos que temos. 
 
O jovem Luan Pessoa deu um excelente exemplo de otimismo no início desta semana. Namorado de Meire Cristina Pires de Lima, estudante universitária de 18 anos que teve uma perna amputada após ter sido atropelada na calçada de uma padaria em Americana, Pessoa “respirou fundo” e, mesmo no olho do furacão, viu o lado positivo daquela trágica manhã de domingo. “Deus poupou minha namorada de um acidente maior. Ele não tirou uma perna dela. Deu uma nova chance para ela recomeçar”, disse o aprendiz de eletricista, numa postagem feita na segunda-feira em seu perfil no site de relacionamento Facebook. 

O otimismo estimula ações positivas, inibe angústias, conforta o coração, abre caminho para o sorriso fácil e, por incrível que pareça, acalma o mercado. Durante um fórum realizado na Bahia, o banqueiro André Esteves criticou o pessimismo com os números da economia. É preciso ver o “copo meio cheio”, disse o dono do BTG Pactual, maior banco de investimentos independente do país, a uma plateia formada por empresários e políticos como o vice-presidente da República Michel Temer (PMDB) e o pré-candidato à Presidência Eduardo Campos (PSB). 
 
Até mesmo o jornalismo precisa de amplas janelas de otimismo. Embora tragédias, escândalos de corrupção, oscilações econômicas e decisões políticas rendam audiência, cabe à imprensa mostrar bons exemplos. Histórias de pessoas que superaram adversidades e venceram, de gente que não mede esforços para ajudar o próximo etc. É claro que um jornal não pode enxergar o “copo meio cheio” o tempo todo, como cobrou o banqueiro. Afinal, assim como portais de notícias e emissoras de rádio e televisão, o impresso tem a fiscalização do poder como principal missão. O problema é que, nessa ronda permanente, encontramos muitos “copos meio vazios” pelo caminho. E é dever dos jornalistas levá-los ao conhecimento do público.


Artigo publicado na edição desta quinta-feira do jornal O LIBERAL - www.liberal.com.br

O livreiro e o jornalista

Ídolo para uns e celebridade para outros, Chico descobriu nos jornais a afinidade com as letras e a paixão incontrolável pela literatura. Trabalhando como jornaleiro nas ruas de São Paulo, o jovem piauiense mais lia do que entregava e chamava a atenção dos compradores. Francisco Joaquim de Carvalho hoje é dono da Livraria do Chico, um templo de leitura que funciona há 38 anos em um dos corredores da UnB (Universidade de Brasília), e um devorador de obras de autores como Paulo Leminski, José Saramago e Antonio Skármeta.

Apresentada na edição do último domingo do programa “Fantástico”, da TV Globo, a trajetória de Chico Livreiro me remeteu a um passado não muito distante. Se o comerciante brasiliense encontrou nos textos jornalísticos o gosto pela leitura e a oportunidade de fazer a vida vendendo livros, eu fiz o caminho inverso. Achei nas memórias de Carlos Heitor Cony, nas biografias de Ruy Castro, nos romances de Gabriel García Márquez e nas crônicas de Rubem Alves minha vocação para o jornalismo.

Eu tinha 17 anos - em 1992 - quando fui contratado para trabalhar numa livraria no Centro de Campinas. Gostei do ambiente logo no primeiro dia. Além de estar cercado por prateleiras abarrotadas de conhecimento, trabalhava com pessoas inteligentes e aprendia muito com os clientes. Jamais me esquecerei de dona Celina, uma funcionária aposentada do Banco do Brasil que comprava uma média de cinco livros por semana e me ensinou a enxergar a beleza singular impressa nas obras dos pintores holandeses Vincent Van Gogh e Johannes Vermeer.

Entre um livro e outro, percebia que meu futuro estava relacionado de alguma forma à escrita. Foi nessa época que li grandes clássicos nacionais e internacionais e transformei meu trabalho em horas produtivas de acúmulo de conhecimento. No início, lia as orelhas e os prefácios de todos os livros que vendia. Talvez já no exercício involuntário da reportagem, questionava os clientes sobre as obras e guardava as informações para que servissem, no futuro, como argumentos de venda.

Iniciei a faculdade de jornalismo em 1996. A grande intimidade e o fácil acesso aos livros foram fundamentais para que eu não tivesse problemas para devorar as bibliografias recomendadas pelos professores e fazer as pesquisas necessárias para a elaboração dos inúmeros trabalhos exigidos durante os quatro anos do curso. Se hoje sou um jornalista com uma bagagem literária razoável, devo isso ao meu passado como “livreiro”. Nesse aspecto, meu passado se encontra com o presente do bravo Chico.


Artigo publicado no jornal O LIBERAL desta quarta, 10-04

Fique (bem) longe dos loucos

Um dia desses, ouvi um cara dizer que quem frequenta estádio é xarope. Embora a frase tenha sido colocada em um debate sobre a morte do adolescente Kevin Beltrán Espada, de 14 anos, vítima de um sinalizador disparado por um torcedor corintiano durante a partida entre San Jose e Corinthians, válida pela primeira rodada da fase de grupos da Copa Libertadores, permita-me discordar.

O amante de futebol não é um torcedor, independente do conhecimento que tem sobre seu time e do tamanho da sua coleção de camisas, pôsteres e de recortes de jornal, sem ter sentido a vibração da arquibancada. É um sentimento único, indescritível e que não se compara à comodidade e à segurança do sofá. O torcedor é forjado no estádio, não no radinho ou diante de uma ampla tela 3D.

A tragédia de Oruro, resultado de um ato inconsequente do fragmento de uma torcida que se autointitula um bando de loucos, é, acima de qualquer coisa, um caso de polícia. E deve ser tratada como tal. Um “louco” que entra num estádio com sinalizadores náuticos e dispara, involuntariamente ou não, contra outra torcida é, no mínimo, imprudente e deve pagar por sua “loucura”.

Frequento estádios desde a infância. Durante essa trajetória de mais de 30 anos, já vi muita coisa. Brigas generalizadas, confrontos entre torcedores e policiais, correrias, tumultos, roubos, saques, mortes etc. Sempre observei tudo, mas nunca me envolvi diretamente em situações que ameaçassem minha integridade física.

É claro que cada jogo tem um fator de risco. Quanto maior a rivalidade dentro das quatro linhas, maiores são as chances de os ânimos se exaltarem fora delas. Isso porque o torcedor absorve a tensão do jogo e a processa emocionalmente. Alguns, psicologicamente mais fortes, a assimilam e a eliminam internamente. Outros, porém, precisam extravasar e, muitas vezes, o fazem com o uso da violência.

Considerando as probabilidades e o histórico brasileiro, eu diria que ir a um estádio de futebol é tão seguro quanto enfrentar o trânsito carregado das grandes cidades, se locomover pelo espaço aéreo brasileiro, frequentar baladas ou divertir-se num parque de diversões. Nas quatro situações citadas, há risco de morte. Porém, em proporções estatísticas “aceitáveis”.

Por isso, continuarei indo a estádios. Criterioso, como sempre fui. É claro que não vou ficar na reta de malucos uniformizados e de outros tantos criminosos que denigrem o futebol e afastam as famílias de um entretenimento tão bacana. Afinal, não sou nenhum camicase. Apenas não abro mão de sentir a arquibancada tremer sob os meus pés e viver a magia que só um campo de futebol proporciona.

(*) Artigo publicado na edição desta quarta-feira, 27/02, do jornal O LIBERAL

Somos todos culpados

"Todos os dias, quando deito pra dormir e falo com Deus, ele me diz: ‘Karin, você tem desafios’, e me pede pra escolher qual lado da vida quero seguir; se é ao lado dele, de mãos dadas com ele, ou se é o lado do mundo. Bom, hoje ao deitar pra dormir tenho certeza de qual lado quero ficar. Quero ficar com ele, ao lado dele, pois sei que é lá o meu lugar e é de lá que vem o meu refúgio, minha fortaleza, e é só lá que mora a minha felicidade".

Esse foi o último pensamento compartilhado no Facebook pela jovem Karin Siqueira, morta em um acidente de trânsito na manhã da última sexta-feira, em Sumaré. Antes de qualquer coisa, deixo aqui meus profundos sentimentos à família e aos amigos de Karin, uma menina de 19 anos, cheia de sonhos e que partiu de maneira precoce.

Muita gente, inclusive eu, ainda tenta interpretar o que há por trás dessas palavras. Para os mais religiosos, o “diálogo” reproduzido acima soa como um chamado divino. Outros adotam a linha do misticismo, do sobrenatural. Os mais céticos, no entanto, fogem da discussão e preferem o discurso mundano, de valorização da vida, de respeito ao próximo, para a construção de um legado positivo antes da partida.

Enquanto as duas perguntas que movem a humanidade - De onde viemos? Pra onde vamos? - não forem respondidas, tragédias como a de Sumaré e a de Santa Maria continuarão gerando uma série de questionamentos e reflexões. Situado entre religiosos, místicos e céticos, acho importante uma análise mais objetiva de acidentes como o que vitimou Karin – reitero, com todo respeito e solidariedade à família.

A morte da garota sumareense é mais um sintoma do colapso urbano. Mais um grito de alerta às autoridades para a enxurrada de automóveis despejada em malhas viárias já saturadas. Juntas, Americana, Hortolândia, Nova Odessa, Santa Bárbara d’Oeste e Sumaré começaram o ano com 496,7 mil veículos, entre carros, motos, ônibus e caminhões - 32,3 mil a mais que o apurado no início de 2012. As motos representam um quinto da frota. Ou seja, a cada cinco veículos em circulação, um é motocicleta ou motoneta (auto de duas rodas menos potente, mas igualmente perigoso).

Portanto, rezemos por Karin. Mas, não nos esqueçamos de refletir sobre as condições do nosso trânsito. Independente de quem estava certo ou errado no cruzamento da Rua Dom Barreto com a Avenida José Mancini, se houve imprudência ou não, cada um que toma a atitude egoísta de comprar um veículo para fugir do transporte público e ajuda a congestionar as ruas e avenidas do país tem sua parcela de culpa em eventos trágicos como esse.

(*) Texto publicado na edição desta quarta-feira, 6 de fevereiro, do jornal O Liberal